Fórum Regeneração Territorial avança em investimentos no Cerrado
Fórum Regeneração Territorial consolida resultados, atrai investimentos e alinha o Cerrado Mineiro às métricas globais de conformidade socioambiental
Realizado pelo Cerrado das Águas, o encontro reuniu produtores rurais, empresas, pesquisadores, instituições públicas e representantes do mercado para discutir clima, paisagem, produção e mecanismos capazes de viabilizar a transição regenerativa do território.

Nos dias 1º e 2 de setembro, Patrocínio (MG) sediou o Fórum Regeneração Territorial. Conectando Sistemas Produtivos no Cerrado. A iniciativa realizada pelo Cerrado das Águas consolidou uma governança multissetorial voltada a enfrentar a severidade climática no bioma, promovendo a integração entre segurança hídrica, adaptação de lavouras e viabilidade econômica em escala de paisagem.
A programação foi desenvolvida em dois momentos complementares. No primeiro dia, no Espaço Cerrado, especialistas, produtores rurais, pesquisadores, empresas e representantes de instituições públicas e privadas estruturaram diagnósticos e metas de restauração baseadas em ciência. No dia seguinte, a Oficina para Investimentos em Regeneração Territorial, realizada na Fazenda Rainha da Paz, transformou os temas apresentados no Fórum, em encaminhamentos concretos em políticas públicas, atração de capital de impacto via blended finance e seguro agrícola paramétrico. .
O Fórum Regeneração Territorial 2026 é uma realização do Cerrado das Águas, com o apoio estratégico do Sebrae, WBCSD (World Business Council for Sustainable Development), Ministério do Meio Ambiente e Mudança de Clima, Rabo Foundation, Embrapa Café, Fundaccer e WWF.
Resultados do Painel 1: Análise de vulnerabilidade e governança de risco climático
A programação do dia 1º teve início com a palestra “Cenários, riscos e soluções para garantir a produção diante do aquecimento global”, ministrada por Marco Antonio Fujihara, especialista em sustentabilidade, governança e mudanças climáticas.
A apresentação contextualizou que a adaptação agronômica aos picos de temperatura e estiagem deixou de ser uma agenda secundária para se tornar elemento central de solvência financeira da cafeicultura . O resultado do debate indicou que bacias monitoradas e dados hidrológicos auditáveis são ativos indispensáveis para mitigar o custo de capital das fazendas.
Na sequência, no painel “A importância da paisagem”, o diálogo ampliou a discussão para além dos limites das propriedades rurais. Mediado pelo CEO da Nature Invest, Michael Becker, as discussões foram ampliadas com as experiências e conhecimentos dos painelistas: Fabiane Sebaio, Secretária Executiva do Cerrado das Águas; Leonardo Queiroz, analista ambiental e coordenador geral de gestão de paisagens no Ministério do Meio Ambiente; Argemiro Teixeira, pesquisador do INPE; Rodolfo Clímaco; representante da Nescafé e vice-presidente do Cerrado das Águas
Como resultado prático da mesa, validou-se a urgência de monitorar não apenas o carbono, mas os ativos hídricos e a biodiversidade. O grupo confirmou o alinhamento das métricas territoriais do Cerrado das Águas aos parâmetros do TNFD (Task Force on Nature-related Financial Disclosures), preparando a cadeia cafeeira para a futura exigência de mensuração da dependência da natureza. Concluiu-se também que esses indicadores fornecem dados verificáveis exigidos pelas diretrizes de reporte do GRI (Global Reporting Initiative) e posicionam o agronegócio na entrega dos compromissos corporativos com os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU) assumidos pelo Brasil.
Resultados do Painel 2: Diferenciação de mercado, conformidade com o EUDR e mercado de carbono
A relação entre integridade ambiental, diferenciação de origem e novas exigências comerciais foi o tema do painel “Mercados e sistemas produtivos regenerativos”, moderado por Marcelo Urtado, cafeicultor e presidente do Cerrado das Águas. O painel reuniu representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária, da Starbucks Brasil, da Delegação da União Europeia no Brasil e da Federação dos Cafeicultores do Cerrado..
O painel teve como resultado a pactuação de medidas técnicas de rastreabilidade de ponta a ponta e governança da informação. Os participantes constataram que a conformidade com as regras do EUDR (EU Regulation on Deforestation-Free Products) é uma condição inegociável para garantir o fluxo de exportações para a Europa sem risco de sanções
Durante os intervalos, o Fórum também promoveu a aproximação entre pesquisa e território por meio da apresentação de trabalhos acadêmicos relacionados à regeneração e à cafeicultura. A exposição “Vozes da Regeneração” abriu espaço para diferentes experiências e percepções de pessoas envolvidas na transformação da paisagem. O momento também favoreceu a apresentação dos produtos do território, como o café da Região do Cerrado Mineiro, Queijo do Cerrado, Licores Tradicionais e a apresentação do trabalho de consciência ambiental realizado pelo Grupo Escoteiros Vidas do Cerrado.
"A gente defende que ninguém faz nada sozinho, ou os resultados são menores. E quando a gente trabalha em conjunto, com esse grupo multidisciplinar, nós temos governo, pesquisadores, instituições e produtores trabalhando junto, de forma coordenada com o Cerrado das Águas, o impacto no meio ambiente e na sociedade é exponencialmente maior do que ações isoladas. Então essa é a proposta: o Fórum Regeneração Territorial e é isso que o Cerrado das Águas faz. Ele atua na sinergia da produção com a preservação. Isso é importante porque não só aqui, mas fora, para onde o nosso café vai, que é o principal produto, há essa preocupação da maneira como ele é produzido e desse cuidado com o meio ambiente", abordou Marcelo Urtado.
Recursos e ferramentas para ampliar a transição
No período da tarde, o debate avançou para os mecanismos necessários à implementação e à expansão das ações regenerativas. Angélica Rotandaro, representante da Rabo Foundation, apresentou uma linha de financiamento voltada à resiliência hídrica, aproximando os desafios ambientais das possibilidades de acesso a recursos financeiros.
Alexander Van Parys, diretor de Operações da Ecomatrix, apresentou ferramentas para apoiar a transição em escala territorial, destacando a importância do planejamento, do acompanhamento de resultados e da integração entre diferentes atores e propriedades.
O último painel do dia, “Impactos da transição regenerativa na resiliência da produção”, reuniu as perspectivas da pesquisa, do mercado, das organizações ligadas à agricultura sustentável e de quem já conduz mudanças na propriedade rural, contando representantes da JDE Peet’s, Embrapa, Volcafe Brasil e Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS), além da experiência de uma produtora rural do Cerrado das Águas.
O painel abordou os impactos ambientais, produtivos e econômicos da transição regenerativa, o potencial dos sistemas agroflorestais para a cafeicultura, a viabilidade econômica das novas práticas e a otimização dos recursos naturais. A experiência da produtora rural do PIPC (Programa de Investimento no Produtor Consciente), Cássia dos Anjos, aproximou o debate da realidade do campo, apresentando aprendizados e desafios relacionados à implantação de um sistema agroflorestal em sua propriedade.
As discussões mostraram que a transição regenerativa deve ser construída a partir da realidade de cada produtor, combinando conhecimento técnico, viabilidade econômica, acompanhamento e acesso a mecanismos que reduzam os riscos da mudança.
Oficina aprofunda caminhos para os investimentos
No dia 2 de setembro, a programação continuou na Fazenda Rainha da Paz com a Oficina para Investimentos em Regeneração Territorial. Realizada pelo Cerrado das Águas em parceria com o WBCSD, a atividade aproximou produtores rurais, financiadores, empresas e instituições para discutir como viabilizar a transição regenerativa na escala da paisagem.
A visita à propriedade permitiu que os participantes observassem o território a partir da realidade produtiva e ambiental da fazenda que há 20 anos investe em práticas regenerativas, conectando os conceitos apresentados no Fórum aos desafios enfrentados no campo.
A primeira mesa de trabalho abordou políticas públicas e oportunidades concretas para a transição regenerativa a partir do caso de investimento do Cerrado das Águas. Foram apresentados resultados de entrevistas realizadas com financiadores e aprendizados da iniciativa Brasil 320 a partir do engajamento com produtores rurais.
Na segunda etapa, os participantes foram divididos em grupos para debater instrumentos financeiros e seguro rural. A atividade possibilitou a troca de experiências e a identificação de mecanismos que podem tornar os investimentos mais acessíveis, reduzir riscos e estimular a adoção de práticas regenerativas.
A programação foi concluída com o momento dedicado ao compartilhamento das reflexões construídas durante as mesas de trabalho. A participação dos produtores reforçou que qualquer estratégia de investimento precisa considerar as condições reais das propriedades, o tempo necessário para a transição, os riscos assumidos por quem produz e os benefícios ambientais gerados para toda a sociedade.
Construção coletiva para um território mais resiliente
Ao reunir, em dois dias, conhecimento científico, políticas públicas, mercado, financiamento e experiência prática, o Fórum Regeneração Territorial fortaleceu a construção de uma agenda compartilhada para o Cerrado Mineiro.
O encontro evidenciou que ampliar a regeneração depende da combinação entre assistência técnica, instrumentos financeiros adequados, políticas públicas, compromisso empresarial, valorização do produtor e mecanismos capazes de reconhecer os serviços ecossistêmicos gerados nas propriedades rurais.
Com essa iniciativa, o Cerrado das Águas reafirma seu papel como articulador de diferentes setores e como impulsionador de soluções que conectam conservação da água, produção agrícola, biodiversidade, resiliência climática e desenvolvimento territorial no Cerrado Mineiro.





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