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Formação em coleta de sementes fortalece restauração no Cerrado

há 9 horas
5 min de leitura

Formação promovida pelo Cerrado das Águas apresenta o potencial da coleta de sementes nativas para o fortalecimento da cadeia produtiva de restauração e a geração de renda no Cerrado Mineiro

Vista aproximada de peneiras circulares com diferentes tipos de sementes, frutos secos, vagens compridas e materiais vegetais do Cerrado, organizados sobre o piso vermelho de uma sala na Fazenda Daterra, em Patrocínio (MG). Entre as amostras aparecem frutos escuros, sementes embaladas em pequenos sacos transparentes, materiais semelhantes a palha e folhetos informativos. Os materiais foram utilizados na formação em coleta de sementes nativas promovida pelo Cerrado das Águas.

Realizada em Patrocínio, a iniciativa reuniu teoria, prática e troca de experiências para ampliar a coleta responsável, gerar oportunidades de renda e apoiar a restauração ecológica no território.

O Cerrado das Águas realizou nos dias 1º e 2 de outubro, na Fazenda Daterra, em Patrocínio (MG), a Formação em Coleta de Sementes Nativas do Cerrado. Durante dois dias, os 36 participantes conheceram, na teoria e na prática, as etapas que envolvem a identificação das espécies, o planejamento da coleta, o beneficiamento, o armazenamento e a comercialização das sementes.

Participantes da Formação em Coleta de Sementes Nativas do Cerrado, promovida pelo Cerrado das Águas na Fazenda Daterra, em Patrocínio (MG), observam amostras de frutos, sementes e materiais vegetais organizados em peneiras sobre o piso de uma sala. Seis pessoas estão em pé ao redor dos materiais, algumas utilizando celulares, durante uma atividade de aprendizagem sobre espécies nativas e beneficiamento de sementes.

A formação integra o projeto Restauração Ecológica e Café, que busca fortalecer paisagens biodiversas e produtivas, promover práticas sustentáveis na produção agrícola e proteger os recursos hídricos fundamentais para o Cerrado. A iniciativa tem o apoio do projeto Floresta Viva, uma iniciativa do BNDES e da Petrobras, com gestão do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). 

A iniciativa reuniu produtores rurais, pesquisadores, representantes do poder público, associações, cooperativas, projetos socioambientais e pessoas interessadas em atuar como coletoras de sementes. Também participaram representantes de cooperativas, do Instituto Estadual de Florestas (IEF) e das secretarias municipais de Meio Ambiente de Patrocínio e Coromandel. Indo além de compartilhar técnicas, o encontro apresentou as oportunidades da cadeia de sementes nativas para a conservação do Cerrado, a restauração ecológica, a inclusão das comunidades e a geração de renda no território.

A formação contou com uma equipe do projeto Canastra Viva, que atua na região do Parque Nacional da Serra da Canastra e trabalha com a restauração de aproximadamente 200 hectares. Junto ao projeto Floresta Viva, o Cerrado das Águas objetiva restaurar 203,26 hectares, e, diante do objetivo, contou com seis potenciais coletores do território participando da capacitação.

A ação contou, para sua realização, com o apoio do Sebrae e da Rede de Sementes do Cerrado e tem como parceiros: Daterra Coffee, Região do Cerrado Mineiro e Angá.

Para Denise Cardoso, especialista em restauração ecológica na Daterra Coffee, receber a formação representou uma oportunidade de aproximação com a comunidade e de fortalecimento das ações de conservação. “Essa integração com a comunidade local e a profissionalização dos coletores são muito importantes. Sabemos que o café é totalmente dependente da conservação do Cerrado, e são ações como essa que ajudam a levar a produção de café e de outros alimentos adiante”, afirmou.

Conhecimento levado para a prática

A programação foi conduzida pelos facilitadores João Carlos Mendes Pereira, engenheiro florestal, consultor em restauração ecológica e agrofloresta e mestre em Agroecologia e Desenvolvimento Rural; Madalena Ferreira, coletora de sementes, bióloga e fundadora do Instituto Sementes do Paraíso; e Fabrícia Santarém, liderança comunitária geraizeira, coletora de sementes, ativista ambiental, vice-presidente da COOCREARP e coordenadora da Araticum.

Instrutor de camiseta azul-marinho e calça jeans apresenta um material vegetal aos participantes da Formação em Coleta de Sementes Nativas do Cerrado, promovida pelo Cerrado das Águas na Fazenda Daterra, em Patrocínio (MG). O público acompanha a explicação sentado em cadeiras, enquanto peneiras com frutos, sementes e vagens estão dispostas no chão, em primeiro plano. Ao fundo, há um quadro-negro com a palavra Daterra.

Na etapa teórica, os participantes conheceram o histórico da coleta de sementes no Brasil, a formação das redes de coletores, a estrutura da cadeia produtiva e as possibilidades de comercialização. Também foram abordados temas como identificação de espécies, seleção de plantas matrizes, fenologia, diversidade genética, rastreabilidade, segurança e boas práticas de coleta.

As atividades práticas foram realizadas em áreas de Cerrado da Fazenda Daterra. Durante a vivência em campo, o grupo identificou espécies, observou diferentes fitofisionomias e aprendeu a reconhecer o período adequado de maturação e coleta dos frutos e das sementes.

Grupo de participantes da formação em coleta de sementes nativas do Cerrado observa a vegetação durante uma atividade prática na Fazenda Daterra, em Patrocínio (MG). As pessoas estão reunidas em uma área de solo avermelhado, entre arbustos e árvores de troncos retorcidos, algumas usando chapéus, botas e carregando bolsas. A atividade promovida pelo Cerrado das Águas aborda o reconhecimento de espécies e as características da vegetação nativa.

“Percorremos o Cerrado com os participantes para identificar espécies, conversar sobre as fitofisionomias e reconhecer aquelas com potencial para coleta. A proposta foi mostrar as possibilidades dessa cadeia para comunidades, produtores rurais e empresas, unindo geração de renda, inclusão das pessoas e conservação do bioma”, explicou o instrutor João Carlos.

A formação também reforçou cuidados essenciais para garantir a qualidade das sementes e a conservação das áreas de coleta, como selecionar diferentes matrizes da mesma espécie, preservar parte dos frutos para a fauna e para a regeneração natural, evitar danos às árvores e registrar informações sobre a origem de cada lote.

Na etapa de beneficiamento, os participantes aprenderam processos de extração, limpeza, seleção, secagem e armazenamento. O conteúdo considerou as particularidades de sementes ortodoxas, recalcitrantes e intermediárias, que apresentam diferentes níveis de tolerância à secagem e períodos distintos de conservação da viabilidade.

Troca de saberes entre diferentes territórios

A presença de coletores e participantes de outras regiões ampliou a troca de conhecimentos sobre a diversidade do Cerrado. Madalena Ferreira, que atua no Norte de Minas Gerais, destacou a oportunidade de conhecer características diferentes do bioma.

“A sensação foi de muita troca de conhecimento. O Cerrado da nossa região já está em transição com a Caatinga e possui árvores de menor porte. Estar aqui, conhecer outro Cerrado e perceber a conexão das pessoas com esse ambiente foi uma experiência muito positiva”, relatou.

Entre os participantes estava o produtor rural de agricultura familiar na região de Patrocínio, Rogério Vieira Marques. Ele já coletava sementes e produzia mudas em pequena escala, mas encontrou na formação uma oportunidade de aperfeiçoar seus conhecimentos.

“Foi muito proveitoso conhecer pessoas que compartilham o mesmo propósito. Eu já faço minhas mudas e coleto sementes, mas o curso permitiu trocar experiências com quem desenvolve esse trabalho em uma escala maior”, contou.

Segundo Polyanna Custódio Duarte, presidente Angá e representante do projeto, a proposta é fortalecer a parceria com o Cerrado das Águas e contribuir para a formação de uma rede regional de coletores. “Queremos conectar a Canastra e colaborar para preencher uma lacuna existente no sudoeste de Minas Gerais, onde ainda não há uma rede ou coletivo de coletores estruturados. A coleta de sementes envolve mais pessoas, torna a restauração mais acessível e pode ampliar a escala das ações realizadas no território”, explicou.

Sementes para regenerar o território

Pessoa de costas, vestindo camisa azul e chapéu cinza de aba larga, utiliza uma haste comprida de cor rosada para alcançar os galhos de uma árvore do Cerrado com frutos secos e folhas verdes. A atividade integra a formação em coleta de sementes nativas promovida pelo Cerrado das Águas na Fazenda Daterra, em Patrocínio (MG), e demonstra técnicas de coleta em campo.

A coleta responsável de sementes nativas é uma etapa fundamental para viabilizar ações de restauração por semeadura direta, técnica conhecida como “muvuca de sementes”. O método utiliza uma mistura de sementes de diferentes espécies para recompor a vegetação e favorecer a recuperação da diversidade e das funções ecológicas da paisagem.

Ao mesmo tempo, a estruturação desta cadeia cria oportunidades para agricultores familiares, comunidades tradicionais, moradores das áreas rurais e outros públicos que conhecem o território e podem transformar esse saber em uma atividade geradora de renda.

“Esta formação representa um marco para o Cerrado das Águas e para a região, pois contribui para conhecermos e estruturarmos a cadeia produtiva da restauração, ao mesmo tempo que incentiva novas pessoas a atuarem na coleta de sementes nativas e ampliarem seus conhecimentos sobre as espécies do Cerrado. Reunimos produtores, pesquisadores, representantes do poder público, associações e instituições, fortalecendo uma construção coletiva. A expectativa é que o aprendizado seja levado aos diferentes espaços de atuação dos participantes e que, no próximo ano, possamos replicar essa experiência em outras áreas do Corredor Regenerativo do Cerrado Mineiro”, destacou Fabiane Sebaio, secretária executiva do Cerrado das Águas.

A partir dos resultados da primeira formação, o Cerrado das Águas pretende ampliar a iniciativa para outras áreas do Corredor Regenerativo do Cerrado Mineiro, disseminando o conhecimento, conectando novos coletores e fortalecendo a cadeia da restauração na região como explica Letícia Pereira Silva, gerente de projetos do Cerrado das Águas.

“O próximo passo será a realização da Oficina da Cadeia Produtiva da Restauração, prevista para o final de novembro de 2026. O encontro permitirá identificar as necessidades e demandas dos produtores por insumos e serviços, como mudas, sementes, compostos e mão de obra, e aproximá-los dos fornecedores. Com essa conexão, buscamos fortalecer a cadeia da restauração no território e otimizar os serviços oferecidos”, finaliza.

Fotografia coletiva dos participantes da Formação em Coleta de Sementes Nativas do Cerrado, realizada pelo Cerrado das Águas na Fazenda Daterra, em Patrocínio (MG), nos dias 1º e 2 de outubro de 2026. Homens e mulheres aparecem organizados em duas fileiras, com parte do grupo em pé e parte agachada ou sentada sobre a grama, diante de árvores altas. A capacitação reuniu 36 participantes para fortalecer a restauração ecológica e a cadeia produtiva de sementes nativas.

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