Formação em coleta de sementes fortalece restauração no Cerrado
Formação promovida pelo Cerrado das Águas apresenta o potencial da coleta de sementes nativas para o fortalecimento da cadeia produtiva de restauração e a geração de renda no Cerrado Mineiro

Realizada em Patrocínio, a iniciativa reuniu teoria, prática e troca de experiências para ampliar a coleta responsável, gerar oportunidades de renda e apoiar a restauração ecológica no território.
O Cerrado das Águas realizou nos dias 1º e 2 de outubro, na Fazenda Daterra, em Patrocínio (MG), a Formação em Coleta de Sementes Nativas do Cerrado. Durante dois dias, os 36 participantes conheceram, na teoria e na prática, as etapas que envolvem a identificação das espécies, o planejamento da coleta, o beneficiamento, o armazenamento e a comercialização das sementes.

A formação integra o projeto Restauração Ecológica e Café, que busca fortalecer paisagens biodiversas e produtivas, promover práticas sustentáveis na produção agrícola e proteger os recursos hídricos fundamentais para o Cerrado. A iniciativa tem o apoio do projeto Floresta Viva, uma iniciativa do BNDES e da Petrobras, com gestão do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO).
A iniciativa reuniu produtores rurais, pesquisadores, representantes do poder público, associações, cooperativas, projetos socioambientais e pessoas interessadas em atuar como coletoras de sementes. Também participaram representantes de cooperativas, do Instituto Estadual de Florestas (IEF) e das secretarias municipais de Meio Ambiente de Patrocínio e Coromandel. Indo além de compartilhar técnicas, o encontro apresentou as oportunidades da cadeia de sementes nativas para a conservação do Cerrado, a restauração ecológica, a inclusão das comunidades e a geração de renda no território.
A formação contou com uma equipe do projeto Canastra Viva, que atua na região do Parque Nacional da Serra da Canastra e trabalha com a restauração de aproximadamente 200 hectares. Junto ao projeto Floresta Viva, o Cerrado das Águas objetiva restaurar 203,26 hectares, e, diante do objetivo, contou com seis potenciais coletores do território participando da capacitação.
A ação contou, para sua realização, com o apoio do Sebrae e da Rede de Sementes do Cerrado e tem como parceiros: Daterra Coffee, Região do Cerrado Mineiro e Angá.
Para Denise Cardoso, especialista em restauração ecológica na Daterra Coffee, receber a formação representou uma oportunidade de aproximação com a comunidade e de fortalecimento das ações de conservação. “Essa integração com a comunidade local e a profissionalização dos coletores são muito importantes. Sabemos que o café é totalmente dependente da conservação do Cerrado, e são ações como essa que ajudam a levar a produção de café e de outros alimentos adiante”, afirmou.
Conhecimento levado para a prática
A programação foi conduzida pelos facilitadores João Carlos Mendes Pereira, engenheiro florestal, consultor em restauração ecológica e agrofloresta e mestre em Agroecologia e Desenvolvimento Rural; Madalena Ferreira, coletora de sementes, bióloga e fundadora do Instituto Sementes do Paraíso; e Fabrícia Santarém, liderança comunitária geraizeira, coletora de sementes, ativista ambiental, vice-presidente da COOCREARP e coordenadora da Araticum.

Na etapa teórica, os participantes conheceram o histórico da coleta de sementes no Brasil, a formação das redes de coletores, a estrutura da cadeia produtiva e as possibilidades de comercialização. Também foram abordados temas como identificação de espécies, seleção de plantas matrizes, fenologia, diversidade genética, rastreabilidade, segurança e boas práticas de coleta.
As atividades práticas foram realizadas em áreas de Cerrado da Fazenda Daterra. Durante a vivência em campo, o grupo identificou espécies, observou diferentes fitofisionomias e aprendeu a reconhecer o período adequado de maturação e coleta dos frutos e das sementes.

“Percorremos o Cerrado com os participantes para identificar espécies, conversar sobre as fitofisionomias e reconhecer aquelas com potencial para coleta. A proposta foi mostrar as possibilidades dessa cadeia para comunidades, produtores rurais e empresas, unindo geração de renda, inclusão das pessoas e conservação do bioma”, explicou o instrutor João Carlos.
A formação também reforçou cuidados essenciais para garantir a qualidade das sementes e a conservação das áreas de coleta, como selecionar diferentes matrizes da mesma espécie, preservar parte dos frutos para a fauna e para a regeneração natural, evitar danos às árvores e registrar informações sobre a origem de cada lote.
Na etapa de beneficiamento, os participantes aprenderam processos de extração, limpeza, seleção, secagem e armazenamento. O conteúdo considerou as particularidades de sementes ortodoxas, recalcitrantes e intermediárias, que apresentam diferentes níveis de tolerância à secagem e períodos distintos de conservação da viabilidade.
Troca de saberes entre diferentes territórios
A presença de coletores e participantes de outras regiões ampliou a troca de conhecimentos sobre a diversidade do Cerrado. Madalena Ferreira, que atua no Norte de Minas Gerais, destacou a oportunidade de conhecer características diferentes do bioma.
“A sensação foi de muita troca de conhecimento. O Cerrado da nossa região já está em transição com a Caatinga e possui árvores de menor porte. Estar aqui, conhecer outro Cerrado e perceber a conexão das pessoas com esse ambiente foi uma experiência muito positiva”, relatou.
Entre os participantes estava o produtor rural de agricultura familiar na região de Patrocínio, Rogério Vieira Marques. Ele já coletava sementes e produzia mudas em pequena escala, mas encontrou na formação uma oportunidade de aperfeiçoar seus conhecimentos.
“Foi muito proveitoso conhecer pessoas que compartilham o mesmo propósito. Eu já faço minhas mudas e coleto sementes, mas o curso permitiu trocar experiências com quem desenvolve esse trabalho em uma escala maior”, contou.
Segundo Polyanna Custódio Duarte, presidente Angá e representante do projeto, a proposta é fortalecer a parceria com o Cerrado das Águas e contribuir para a formação de uma rede regional de coletores. “Queremos conectar a Canastra e colaborar para preencher uma lacuna existente no sudoeste de Minas Gerais, onde ainda não há uma rede ou coletivo de coletores estruturados. A coleta de sementes envolve mais pessoas, torna a restauração mais acessível e pode ampliar a escala das ações realizadas no território”, explicou.
Sementes para regenerar o território

A coleta responsável de sementes nativas é uma etapa fundamental para viabilizar ações de restauração por semeadura direta, técnica conhecida como “muvuca de sementes”. O método utiliza uma mistura de sementes de diferentes espécies para recompor a vegetação e favorecer a recuperação da diversidade e das funções ecológicas da paisagem.
Ao mesmo tempo, a estruturação desta cadeia cria oportunidades para agricultores familiares, comunidades tradicionais, moradores das áreas rurais e outros públicos que conhecem o território e podem transformar esse saber em uma atividade geradora de renda.
“Esta formação representa um marco para o Cerrado das Águas e para a região, pois contribui para conhecermos e estruturarmos a cadeia produtiva da restauração, ao mesmo tempo que incentiva novas pessoas a atuarem na coleta de sementes nativas e ampliarem seus conhecimentos sobre as espécies do Cerrado. Reunimos produtores, pesquisadores, representantes do poder público, associações e instituições, fortalecendo uma construção coletiva. A expectativa é que o aprendizado seja levado aos diferentes espaços de atuação dos participantes e que, no próximo ano, possamos replicar essa experiência em outras áreas do Corredor Regenerativo do Cerrado Mineiro”, destacou Fabiane Sebaio, secretária executiva do Cerrado das Águas.
A partir dos resultados da primeira formação, o Cerrado das Águas pretende ampliar a iniciativa para outras áreas do Corredor Regenerativo do Cerrado Mineiro, disseminando o conhecimento, conectando novos coletores e fortalecendo a cadeia da restauração na região como explica Letícia Pereira Silva, gerente de projetos do Cerrado das Águas.
“O próximo passo será a realização da Oficina da Cadeia Produtiva da Restauração, prevista para o final de novembro de 2026. O encontro permitirá identificar as necessidades e demandas dos produtores por insumos e serviços, como mudas, sementes, compostos e mão de obra, e aproximá-los dos fornecedores. Com essa conexão, buscamos fortalecer a cadeia da restauração no território e otimizar os serviços oferecidos”, finaliza.






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