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Semeadura direta e benefícios para o bioma cerrado

Mariana Cristina dos Santos Bióloga e Analista de Paisagens Conectadas Consórcio Cerrado das Águas

O bioma Cerrado é composto por um mosaico de vegetação que varia desde formações florestais, a savanas e campos. Grande parte da vegetação nativa original foi alterada pelas atividades antrópicas e a paisagem produtiva precisa ser repensada para alcançar a estrutura e o funcionamento dos ciclos existentes com a vegetação original ou potencial da área. Para isso, métodos adequados para as diferentes fisionomias do Cerrado devem ser utilizados, associado a adoção de estratégias climaticamente inteligentes para as áreas produtivas.As estratégias da frente de Paisagens Conectadas do CCA do Consórcio Cerrado das Águas, considera diferentes técnicas de acordo com cada fitofisionomia. O reconhecimento da área é feito através do diagnóstico que identifica as características da área e propõe as estratégias adequadas. Dentre essas estratégias, temos a semeadura direta.

Nessa estratégia de restauração, a deposição de sementes é realizada diretamente no solo. Após serem semeadas, as espécies germinam e crescem nas condições do local implementado. Em várias situações, a semeadura direta é mais viável do que o plantio de mudas, devido ao sucesso ecológico e a viabilidade econômica. Além disso, pode gerar trabalho e renda para as comunidades locais.

Com o objetivo de testar a germinação e viabilidade de utilização de sementes nativas do Cerrado, o CCA promove experimentos em algumas propriedades participantes do Programa de Investimento no Produtor Consciente (PIPC). Um dos experimentos foi realizado na fazenda Recanto das Águas Claras, em uma área que, no passado, foi explorada para extração de areia e cascalho, onde, após mais de 20 anos sem exploração, a vegetação nativa campestre/savânica ainda está descaracterizada. Com o solo exposto com voçorocas e sulcos, a área tem baixo potencial de regeneração e, por isso, necessidade de intervenção.

A proposta de intervenção do CCA baseou-se em realizar a restauração observando a vegetação nativa de origem, intervindo com espécies características das formações vegetais da área e promovendo o preparo do terreno com mínimo de impacto, para que não haja o risco de intensificar os processos erosivos. Com isso, buscamos sempre desenvolver estratégias de restauração com custos menores, visando encontrar o protocolo de manejo com melhor custo/benefício para os produtores. O experimento foi realizado em parcelas distintas, cuja área encontra-se em estágio avançado de degradação. O tamanho da área foi de 5.000 m², com preparo do terreno de forma manual onde semeamos 72 Kg de sementes nativas do Cerrado.

Na Reserva Legal da fazenda Boa Vista, também foi desenvolvido um experimento de semeadura direta. A área amostrada é uma Reserva Legal que atualmente possui invasão de braquiária. No local, foi realizado o teste com 22 espécies de sementes nativas em uma única parcela de 5.000 m². A intervenção visa acelerar o processo de sucessão na área e aumentar a diversidade local.

A semeadura demonstrou ser uma técnica de grande resiliência. Ambos locais enfrentaram eventos climáticos extremos como seca e geada no ano de 2021, e mesmo assim, com 12 meses de implementação apresenta uma germinação muito satisfatória. Conforme a semeadura é executada, novos conhecimentos são adquiridos e a técnica aperfeiçoada.

No ano de 2021, o CCA em parceria com a Rede de Sementes do Cerrado promoveu o curso: “Sementes do Cerrado: Formação de Coletores e Restauradores”, com mais de mil pessoas inscritas. A semeadura direta é uma técnica que necessita de grande quantidade de sementes e isso pode trazer grandes oportunidades para as comunidades locais. Por isso, fomentamos a formação de coletores de sementes na região do Cerrado Mineiro. O CCA busca cada vez mais o desenvolvimento de estratégias para a preservação e manutenção dos serviços ecossistêmicos.

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Créditos imagem: Arquivo CCA



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